Bussunda
12-07-06
Nosso tempo com Bussunda
Quando não éramos nada e éramos reis
Arnaldo Bloch - O Globo, Segundo Caderno 24/06/2006


Fala, Bussunda.
A última vez que conversamos direito faz ano e tanto. Foi no Sujinho, boteco lá no fundo do campus da UFRJ. A gente tinha participado, juntos, de uma mesa de ex-alunos da Escola de Comunicação, a ECO, onde convivemos por tantos anos, quase diariamente. O Chacal e a Fátima Bernardes também participaram do evéeeinto em auditório, mas na hora de beber fomos nós dois e uma rapaziada nova da escola, esvaziamos um engradado inteiro (os médicos que me perdoem, mas santo Bussunda, judeu-ateu-hedonista que era não ia deixar por menos). O bonito daquela tarde foi que a garotada falava sobre o nosso tempo (primeira metade dos anos 80, entrando na segunda) como uma era mítica, em que fatos épicos, Show do Casarão, Chopeladas, Fortaleza no ônibus do Brizola, Floripa, movimento Overdose/ Esfaqueie Sua Mãe, formavam, já, uma saga inteira, transmitida à nova geração, em que nomes da nossa – tipo Glauber, Marconi, Serginho, Zé José, Luizão, Paula, Joyce, Ivana, Ivan, Heitor, Fig, Kid, Mansur, Zará, Zelig, Dario, Angélica, Marcita, Sílvia, Cláudia, Sílvio, Suzy, Kokó, Carla, Célia, Mônica-do-Bolo, Urubu, João Moraes, tanto mais – ocupavam, num pedacinho do imaginário deles, uma galeria da galera.

Curioso que ali, para a meninada, importava menos o Bussunda-celebridade e mais a raiz que plantou nos corredores de losangos, nos pátios e jardins internos estilo francês, nos laguinhos, no gelo do azulejo, nos futuns do Centro Acadêmico. A Suzy, aliás, veio lá em casa esses dias, trouxe fotos, você nelas, uma cuja existência sequer desconfiava: a gente no palco, a “Casseta” já engatinhava mimeografada mas você tocava na mesma banda que eu, ou melhor, cantava, dançava, mandava “solos de cubo mágico”, a gente gostava de dizer que era o “joker”. E era mesmo: um dia despediu-se da banca e foi alçar carreira de humor com gente oriunda de outras galeras, São Vicente, Engenharia, e, mais lá atrás movimentos sionistas de esquerda (Bussunda, neto materno de imigrante polonês fugido da Europa, ganhou apelido na Kinderland, colônia de férias do movimento). Mas, Casseta à parte, você continuou conosco, fiel da galera naquele tempo podia-se quase morar na faculdade, e a Praia Vermelha era um paraíso para o... well, livre-pensar putzgrila, a galera fez uma revolução lá dentro, anarquista, pseudo, o Muniz Sodré pirou, aliás foi engraçado ver o Muniz todo sério, prestar homenagens a você naquele encontro da tarde com a garotada da ECO, era só você abrir a boca para o auditório cair de ovações, principalmente quando disse que naqueles corredores encontrou a noção mais aguda da igualdade entre os seres (sem conotações boiolísticas), pensamentos e origens, conheceu um Rio maior-melhor, além de inclusive-Zona Sul, e dali viria parte importante na maturação da sua arte – a arte de ser Bussunda.

Naquela mesa com a garotada alguém perguntou se afinal você foi ou não foi jubilado da ECO, pois passou ali infindáveis anos, não lembro a resposta, mas se perguntassem de novo eu diria: “O Bussunda, jubilado? Como é que se pode jubilar o sujeito que é motivo de júbilo onde passa?” Estava mais para o Bussunda jubilar a faculdade que e ficar só ali, primitivo guerreiro de grandes pés e pança peluda, de longos cabelos ondulados ora trançados, ora cobertos por um gorro colorido, o short Adidas desbotado, sandálias velhas, sorrisão dentuço que fazia os olhos fecharem de tanto gozo pela vida e de tanto amor pela gente toda que teve o privilégio de amar e ser amada por você. Beijo no Pretinho, Marconi, Felipe e na Daniela, que, se reencarnarmos todos um dia, marcado está aquele cafezinho em Amsterdã, Amém.

por Seu Casseta em 12-07-06
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