Bussunda
17-07-06
BUSSUNDA BESSERMAN VIANNA


Sergio Besserman Vianna, irmão de Bussunda, escreve na seção 'Opinião' de O Globo, 13/07/2006:

Quando minha mãe, a Dra. Helena Besserman Vianna, faleceu, há quatro anos, organizamos um ato em sua memória na Associação Scholem Aleichem (ASA), onde falamos, os filhos, parente, amigos, ex-pacientes e companheiros de luta.

Naquela ocasião, contei de sua luta e a de meu pai, Dr. Luiz Guilherme Vianna, também falecido, pelas causas da liberdade e da justiça social.

Mamãe, competente psicanalista clínica e profissionalmente conhecida em todo o mundo pela defesa da ética, condecorada com a medalha Chico Mendes como lutadora pelos direitos humanos, dedicou sua vida às causas ligadas à luta pela democracia e em defesa dos oprimidos. Enfrentando o regime militar e instituições corporativas, correu elevados riscos ao denunciar médico que participava de torturas na ditadura. Cumpriu a risca o preceito Talmúdico e diz: "Aquele que é misericordioso com os homens cruéis, acaba por ser cruel com os misericordiosos."

Papai, além do mesmo engajamento político, foi um excepcional cirurgião que, por escolha moral e ideológica, dedicou-se, prioritariamente ao serviço público e aos desfavorecidos. Sua dignidade tinha tal tamanho que, por muitas gerações seus descendentes não terão a escolha de outros caminhos que não os da integridade ética.

Não foi surpresa para os presentes quando chamei a atenção para o fato de que apesar dessas densas e ricas vidas, papai e mamãe eram, em primeiro lugar e acima das agruras do cotidiano, leitores. Todos os dias, todo o tempo, estavam lendo. Jornais, revistas, romances, novelas, livros de estudo sobre diversos assuntos. Impossível pensar em meus pais sem um, dois ou mais livros ao lado. Inimaginável perguntar o livro que liam e não obter resposta.

Ao que já foi dito sobre meu irmão Cláudio, o mais importante a acrescentar é que ele também era assim, como são seus irmãos, a mulher que amou, Angélica, e já é, aos doze anos de idade, sua filha Julia.

Cláudio, além da consciência política e social, lia o tempo todo. Conhecia extensamente a literatura clássica (entre seus romances preferidos citaria sempre "A Montanha Mágica", de Thomas Mann) e se atualizava com a produção contemporânea. Imerso pelo lado materno na cultura judaica, conhecia bastante bem I. Peretz, Scholem Aleichem, Isaac Bashevis Singer e os contemporâneos P. Roth, Amos Oz e muitos outros. Devorava literatura brasileira, biografia e livros sobre ciência política, história mundial e nacional. Fazia questão de se manter atualizado nas ciências naturais através de revistas e livros especializados de divulgação científica. Nunca estaria acompanhado de menos do que dois livros. Perguntado sobre as fontes de sua formação como humorista, citaria sempre Dickens em primeiro lugar.

Sem esse Cláudio não poderia haver o Bussunda e isso é algo sobre o qual vale a pena o Brasil pensar.

Sobre meu pai, em um livro, o psiquiatra Nikodem Edler escreveu, parafraseando Manuel Bandeira: "...associo Luiz Guilherme ao que pode haver de melhor no relacionamento entre pessoas, e fico imaginado ele, comuna e ateu, chegando ao céu depois de deixar para trás filas de beatos assustados, que aguardam o julgamento final. Parando muito encabulado na entrada do paraíso onde Pedro o aguardava com um enorme sorriso, diz para o santo porteiro:

- Puxa, São Pedro, eu, que nem acreditava no senhor, será que vou conseguir licença para entrar?

E Pedro, bonachão, curvando-se e abrindo a porta:

- Entra, Luiz Guilherme. Você não precisa pedir licença."

Na homenagem à minha mãe, acrescentei que para os judeus não há céu nem inferno. Mas, um dia, as trombetas vão soar e a alma de mamãe, que estará ao lado da de papai, ouvirá que o Messias finalmente entrará em Jerusalém e que ocorrerá o Julgamento Final. Uma voz então dirá: "Isso é ótimo, mas como será esse Julgamento? Como garantir que será justo com os humanos? Que será ético?" Então, o próprio Senhor responderá: "Vamos discutir isso, Helena, pois foi para isso que você viveu. "

E, virando-se para o lado, onde está meu irmão Cláudio, acrescentará: "E você, meu filho, desculpe a pressa, mas estávamos precisando da sua Graça."
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Sergio Besserman Vianna, ex-presidente do IBGE, é presidente do Instituto Pereira Passos.

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por Seu Casseta em 17-07-06
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